
Programação francesa no PORTO/POST/DOC

De 19 a 28 de novembro, o Porto/Post/Doc acolhe uma programação marcada pela diversidade do cinema francês e francófono, reunindo filmes, retrospetivas, encontros com realizadores e profissionais da indústria, bem como iniciativas dedicadas à produção e à circulação internacional de obras audiovisuais.
O cinema francês estará em destaque na edição de 2026 do Porto/Post/Doc, que decorre de 19 a 28 de novembro. Entre a competição internacional, as retrospetivas, os programas temáticos e os encontros profissionais, o festival propõe um percurso por diferentes geografias, linguagens e formas de criação cinematográfica, com especial atenção às relações entre memória, identidade, exílio e transformação social.
A presença francesa estende-se igualmente aos Porto Industry Days, que, de 23 a 26 de novembro, promovem o intercâmbio entre profissionais do setor audiovisual e exploram novas formas de produção e de narrativa, do documentário às séries televisivas e sonoras.
Alain Gomis em foco: cinema, memória e pertença
Um dos grandes destaques desta edição é o foco dedicado a Alain Gomis, cineasta francês de ascendência senegalesa e bissau-guineense, cuja obra percorre as fronteiras entre ficção e documentário. Os seus filmes interrogam o exílio, a memória, a pertença e os efeitos persistentes da história colonial, acompanhando personagens que procuram construir a sua identidade entre diferentes territórios e culturas.
O programa reúne seis filmes representativos do percurso do realizador: Como um Homem, a 20 de novembro, às 19h30; Andaluzia, a 21 de novembro, às 19h30; Dao, a 22 de novembro, às 20h45, e a 24 de novembro, às 16h00; Rewind & Play, a 26 de novembro, às 21h30; e Hoje, a 27 de novembro, às 19h15. As sessões decorrem no Batalha Centro de Cinema, com exceção de Félicité, que será apresentado a 28 de novembro, às 19h00, no Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery. Dao integra também a Competição Internacional.
Este foco será acompanhado por um programa dedicado ao Centro Yennenga, estrutura criada por Alain Gomis em Dakar para apoiar a formação, a pós-produção e a difusão cinematográfica. A iniciativa dá visibilidade a uma nova geração de cineastas da África Ocidental e evidencia a importância de criar condições para o desenvolvimento e a circulação de novas vozes no cinema africano.
A programação conta com a participação de Amélie Galli, programadora de cinema no Centre Pompidou, em Paris, desde 2008. Especialista em cinema contemporâneo, colaborou em retrospetivas e exposições dedicadas a realizadores como Wang Bing, Teresa Villaverde, Lucrecia Martel e Alice Diop. Em outubro de 2026, participou na programação da retrospetiva dedicada a Alain Gomis no Centre Pompidou. No Porto/Post/Doc, contribui para o foco dedicado ao cineasta e para o programa sobre o Centro Yennenga, aproximando o público da sua obra e das dinâmicas de criação cinematográfica na África Ocidental.
Cinema francês nas competições
A criação francesa e as coproduções internacionais marcam presença em várias secções competitivas do festival, revelando a diversidade estética e temática do cinema contemporâneo.
Na Competição Internacional, além de Dao, de Alain Gomis, serão apresentados À Noite, de Beatrice Gibson; Castelo de Lata, de Alexander Murphy; Flor de Fogo, de Ana Vaz; e Segurar uma Montanha, de Biljana Tutorov e Petar Glomazić. Beatrice Gibson e Ana Vaz estarão presentes no Porto para acompanhar a apresentação dos seus filmes.
Na Competição Internacional de Médias e Curtas-Metragens, o programa inclui As Damas, de Camille Zehenne; Masao Adachi Tira uma Foto Tipo Passe, de Kamal Aljafari; Três Coisas que Aprendi em França, de Te-Gao Hong; e Tutti-frutti, de Céline Sciamma. Este último será exibido a 24 de novembro, às 17h00, no Batalha Centro de Cinema, Sala 2, e a 26 de novembro, às 19h30, no Passos Manuel.
Entre as realizadoras com presença confirmada encontra-se Camille Zehenne, que apresentará As Damas, produção francesa integrada na competição de médias e curtas-metragens.
O festival recebe também Miléna Desse, realizadora de Viver Por Entre as Fissuras, produção belga que observa formas de resistência, solidariedade e coabitação numa antiga fábrica de Bruxelas habitada por refugiados e artistas. Os dois filmes serão apresentados na mesma sessão, a 21 de novembro, às 17h15, no Batalha Centro de Cinema, Sala 2, e a 22 de novembro, às 19h15, no Passos Manuel.
A presença da coprodução francesa estende-se ainda à Competição Cinema Falado, com Amílcar, de Miguel Eek; Os Continuadores da Revolução, de Pedro Neves; e Saudades Eternas, de Emma Boccanfuso.
Mulheres, memória e histórias por redescobrir
A programação inclui também propostas que questionam a forma como a história do cinema é construída e quais as vozes que permanecem à margem dos seus cânones.
É neste contexto que se inscreve Another Story, programa dedicado à redescoberta de obras de realizadoras historicamente menos reconhecidas. A seleção é assinada por Charlotte Ducos, responsável pela área de indústria e consultora de documentário na Swiss Films, que participará na conversa «É possível reescrever a história do cinema?», a 24 de novembro, às 18h00, no High Life do Batalha, juntamente com Yvonne Scholten e Carmen Gray.
O programa estabelece um diálogo entre a memória cinematográfica e a necessidade de repensar os arquivos, a historiografia e os mecanismos de reconhecimento das cineastas.
Profissionais franceses nos júris e nos encontros com o público
A participação francesa no Porto/Post/Doc faz-se igualmente através dos júris e da reflexão crítica sobre o cinema contemporâneo.
Alice Leroy, investigadora, docente e crítica dos Cahiers du cinéma, integra o júri da Competição Internacional. Colabora também no programa L’Esprit critique, do Mediapart, e é programadora associada do Cinéma du Réel, no Centre Pompidou.
Nepheli Gambade, curadora, programadora e crítica, integra o júri da Competição Cinema Falado. Membro do comité de seleção do Cinéma du Réel, desenvolve igualmente trabalho com o Arquivo Cinematográfico Grego e o Festival de Cinema Avant-Garde de Atenas.
Por sua vez, Sam Baron, designer e consultor criativo francês formado em Saint-Étienne e na École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs, em Paris, fará parte do júri da Competição Cinema Novo. Com um percurso que cruza design, arte e interiores, colaborou com marcas como Dior Maison, Diptyque e De La Espada, tendo apresentado o seu trabalho em instituições como o Centre Pompidou e a Triennale di Milano.
Esta presença reforça a dimensão internacional do festival e a diversidade de perspetivas que contribuem para a descoberta e a valorização de novas propostas cinematográficas.
Porto Industry Days: novas narrativas, novas formas de produção
Entre 23 e 26 de novembro, os Porto Industry Days constituem outro eixo importante da presença francesa no festival, promovendo o encontro entre profissionais e o debate sobre as transformações da criação audiovisual.
A 26 de novembro, no Pequeno Auditório do Teatro Municipal do Porto — Rivoli, o programa Fabrico em Série, de entrada livre, reúne profissionais franceses e portugueses para explorar diferentes modelos de escrita, produção e circulação de narrativas seriadas.
Às 10h00, Bruno Nahon, fundador da produtora francesa Unité, apresenta o estudo de caso DJ Mehdi: Made in France. Com experiência na produção de cinema de autor, documentários e séries televisivas, Nahon trabalhou em filmes como Les Invisibles, de Sébastien Lifshitz, e A História de Souleymane, de Boris Lojkine, bem como em séries como Ainsi soient-ils, Mythomaniac e Class Act. A partir da série documental sobre DJ Mehdi, realizada por Thibaut de Longeville e distinguida no CANNESERIES em 2024, abordará o uso de arquivos pessoais, os desafios éticos da construção de uma narrativa biográfica e os modelos de produção do documentário em série.
Durante a manhã, Emmanuel Laurentin participa na conversa «Novas formas documentais: séries sonoras», com João Santos Duarte, do Observador. Jornalista e historiador, Laurentin desenvolveu grande parte do seu percurso na estação pública France Culture, onde criou e apresentou La Fabrique de l’histoire e Le Temps du débat. Desde 2024, é delegado para o documentário da estação. O encontro explorará as possibilidades da escrita radiofónica, da montagem sonora e das narrativas documentais em série, colocando em diálogo a experiência francesa e o jornalismo sonoro português.
Às 14h30, Carole Della Valle integra o painel «Séries de Bolso», com Manuel Amaro da Costa e Pedro Lopes. Com experiência na produção de ficção televisiva, participou em projetos como Skam France, Germinal e Les Disparus de la forêt noire, tendo produzido também Désenchantées, adaptação do romance de Marie Vareille para a France Télévisions. A conversa abordará as narrativas breves e os formatos verticais, refletindo sobre a forma como a escrita e a realização respondem aos novos hábitos de consumo audiovisual.
As três sessões serão moderadas por Carole Desbarats, antiga diretora de estudos da escola francesa La Fémis e diretora artística dos Rencontres du Havre, dedicados às séries televisivas. Docente, ensaísta e especialista em educação para o cinema, tem desenvolvido um trabalho continuado sobre a análise das imagens e a formação de públicos.
Uma rede internacional de criação e coprodução
Os Porto Industry Days contarão ainda com a participação de outros profissionais ligados ao cinema francês e às redes internacionais de produção e distribuição.
Cyril Neyrat, diretor artístico do FIDMarseille, participará nas Industry Screenings, contribuindo para o diálogo com equipas que apresentam filmes em fase de finalização. Raphaëlle Cittanova, produtora ligada à Itsi Bitsi Films e ao Cannes Docs / Marché du Film, e Tania El Khoury, produtora da Les films de l’Altaï, integram igualmente o conjunto de profissionais presentes nas atividades de indústria.
Jasmina Sijercic, produtora da Bocalupo Films e membro do júri do Arché Porto, traz a experiência de um percurso internacional que inclui obras apresentadas em Cannes, Locarno e CPH, com filmes de Marta Popivoda, Ivan Markovic e Daphné Hérétakis.
Também Hannah Papacek Harper, realizadora e produtora franco-australiana da Pyroclast Productions, estará presente nos Encontros de Coprodução para apresentar Journey of an Archive, projeto desenvolvido com Francesco Amoruso. A obra acompanha a preservação dos diários do escritor palestiniano Raja Shehadeh, cruzando questões de memória, arquivo e exílio.
A dimensão internacional do programa estende-se ainda a Heidi Fleisher, produtora e consultora norte-americana radicada em França, que integra o júri do Arché Porto. Com mais de vinte anos de experiência no documentário, trabalhou nas aquisições internacionais da France Télévisions e na direção de vendas e aquisições da ARTE Sales.
Entre os projetos apresentados nas Industry Screenings encontram-se Time of Summer, de Vadim Kostrov, produzido pela Kostrov Films, e Body in Plural, de Marta Popivoda, com coprodução da Bocalupo Films. Nos Encontros de Coprodução, além de Journey of an Archive, será apresentado Archiveless Memories – For an Imaginary Museum, de Ali Razi, com coprodução da Darjeeling.
O programa inclui ainda prémios e oportunidades profissionais em parceria com o FIDLab/FIDMarseille e o EURODOC, reforçando as possibilidades de colaboração entre profissionais e estruturas de diferentes países.
Um percurso pelo cinema francês, do património às novas gerações
Para além das competições e dos encontros profissionais, o Porto/Post/Doc apresenta uma seleção alargada de produções e coproduções francesas em diferentes secções.
Entre os títulos a descobrir encontram-se A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieślowski; Eu, Capitão, de Matteo Garrone; Num Aperto de Mãos Amigas, de Manoel de Oliveira e Jean Rouch; Três Pontes sobre o Rio, de Jean-Claude Biette; Paisagens de Resistência, de Marta Popivoda; One Hundred Steps, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca; e Yalda, Uma Noite de Perdão, de Massoud Bakhshi.
O programa juvenil Docs4Teens inclui igualmente duas coproduções francesas: Fantástica, de Marjolijn Prins, e O Rapaz dos Insetos, de Lucas Paleocrassas. Estas sessões prolongam o diálogo com os públicos mais jovens, incentivando a descoberta do cinema documental e de novas formas de olhar o mundo.
O cinema como espaço de diálogo entre culturas
A participação francesa no Porto/Post/Doc 2026 reflete a vitalidade de uma criação cinematográfica que se constrói no encontro entre culturas, disciplinas e geografias. Da obra de Alain Gomis às novas vozes das competições, passando pela reflexão sobre os arquivos e a história do cinema e pelas experiências de produção audiovisual, o festival oferece múltiplas oportunidades para descobrir filmes, conhecer os seus criadores e aprofundar o diálogo entre profissionais e públicos.
O Institut français du Portugal associa-se à valorização desta presença, que evidencia a diversidade do cinema francês e francófono e a importância da cooperação cultural e audiovisual entre França e Portugal.

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