
Ciclo François Truffaut – “Ao Sol da Nouvelle Vague”

François Truffaut é protagonista de uma retrospectiva quase integral no Cinema Nimas, com início a partir do dia 2 de Julho.
Apesar da importância fundamental de Truffaut, parte do núcleo central da Nouvelle Vague e influência decisiva no cinema moderno, os seus filmes têm sido menos vistos. Pois bem, finalmente restaurados, vamos poder vê-los de novo no grande ecrã. François Truffaut (1932-1984) fez parte do núcleo central da Nouvelle Vague, com Godard, Chabrol, Rivette e Rohmer, uma geração cinéfila, que começou pela crítica e pelo cineclubismo (Truffaut, ainda menor, fundou um cineclube, com o sugestivo nome de “Cercle Cinémane / Círculo Cinemaníaco”) e passou à realização sem frequentar a escola de cinema. No início dos anos 80, com o grande sucesso de Le Dernier Métro (O Último Metro), chegou a ser considerado um “cineasta popular“, como o foram também, aliás, muitos dos realizadores que ele mais amava: Chaplin, Renoir, Hitchcock ou Lubitsch. Mas, e apesar da sua importância fundamental e de ter sido também ele um dos cineastas mais amados do seu tempo, os seus filmes, com raras excepções, têm sido, desde a que a Cinemateca os mostrou há vinte anos, menos vistos nas salas de cinema, eventualmente por razões de direitos. Finalmente restaurados, vamos poder vê-los de novo agora – e para uma nova geração de espectadores esta será uma oportunidade única – numa retrospectiva praticamente completa (só Fahrenheit 451, 1966, e La Nuit Américaine, 1973, ficam, por enquanto, de fora).
Como epígrafe ao seu livro Os Filmes da Minha Vida, Truffaut escolheu uma afirmação de Orson Welles: “Creio que qualquer obra será boa na medida em que exprima o homem que a criou.” Os filmes de Truffaut, para quem a vida era o cinema, e por amor dele se perdeu e por amor dele se salvou, exprimem as suas complexidades e contradições, os seus entusiasmos e os seus medos. Num número temático que lhe dedicaram recentemente os Cahiers (onde foi crítico, apadrinhado por André Bazin, seu tutor e que exerceu junto dele – que crescera numa família complicada e fora um jovem marginal como alguns dos protagonistas das suas obras – o papel de figura paterna positiva), sublinha-se que “os seus filmes continuam a tocar-nos e a estimular-nos, ainda hoje, quase quarenta anos depois do seu desaparecimento precoce. […] Imperfeita, múltipla, lúdica e por vezes trágica, a sua obra não tem nada de um monumento. Pelo contrário, quando revemos os seus filmes, ficamos impressionados pela sua impureza, a sua invenção e o seu lado paradoxal. É uma obra viva, […] única na sua multiplicidade, cuja interpretação, aliás, tem variado ao longo das épocas.“
Como sabemos, a história de qualquer arte está constantemente a ser reescrita. E se a seguir à sua morte, depois de alguns dos sucessos de bilheteira, os Cahiers e outros vieram por sua vez reabilitar alguns dos filmes mais secretos, passionais, atravessados por correntes subterrâneas, hoje, quatro décadas volvidas, começa a redesenhar-se, pouco a pouco, um Truffaut mais solar, o dos filmes Tirez sur le pianiste (1960), Baisers volés (1968) ou L’argent de poche (1976). É tempo de redescobrir a sua obra e de lhe trazer novas interpretações.

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