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Entrevista de Pedro Barreiro – Diretor d’O Espaço do Tempo

© Inês Samba

 

O Espaço do Tempo é uma estrutura artística transdisciplinar, situado no Convento da Saudação, em Montemor-o-Novo, no distrito de Évora. A principal atividade d’O Espaço do Tempo tem sido um extenso programa de residências artísticas, com especial foco nas artes performativas contemporâneas, na criação emergente e no pensamento crítico.

Em julho e em co-produção com o Institut français du Portugal, vai receber a artista e performer Anna Gaïotti.

Quisemos saber mais sobre este espaço atípico de criação, no meio do Alentejo, através dos olhos do seu diretor, Pedro Barreiro.

 

 

1. O Espaço do Tempo foi criado por Rui Horta em 2000, numa altura de grande efervescência em Portugal e na Europa, nomeadamente no campo da dança contemporânea. Foi um projeto visionário, que hoje é um espaço de referência, como demonstra o Prémio Gulbenkian recebido em 2018 na área do Conhecimento. O Pedro assumiu a direção em 2022: qual é sua a perspetiva em relação a este legado e como planeia o futuro?

O Espaço do Tempo é realmente um projecto ímpar desde a sua fundação, tornando-se, muito rapidamente, um projecto de referência nacional e internacional. A ação do Rui Horta como fundador e director artístico foi particularmente relevante nesse sentido, pois ele conseguiu, desde o início, pôr os seus conhecimentos e o seu capital artístico e relacional, de forma muito generosa, ao serviço dos artistas e das artes performativas portuguesas. Desde então, O Espaço do Tempo tem acolhido e apoiado inúmeros artistas nacionais e internacionais, sendo determinante para o desenvolvimento de muitos dos seus trabalhos e dos seus percursos, seja através de residências de criação, acompanhamento artístico, bolsas ou co-produções, mas também através da Plataforma Portuguesa de Artes Performativas, que é a mais importante plataforma para a internacionalização de artistas das artes performativas portuguesas.

Quando eu decidi candidatar-me à direção artística d’O Espaço do Tempo, fi-lo por considerar que este projecto era o mais relevante e o mais estimulante da cena artística independente em Portugal, precisamente devido a todo o trabalho que tinha sido feito pelo Rui Horta e por tantas outras pessoas que por aqui passaram nos últimos 24 anos. Sobre este legado e sobre o modo como estou a trabalhar para o presente e para o futuro d’O Espaço do Tempo, há dois verbos que sustentam a minha abordagem: cuidar e desenvolver. Cuidar de todo o património que resulta do trabalho realizado desde o início; e desenvolver o projecto, no sentido de conseguir melhores condições para as pessoas que trabalham connosco, aumentar o acesso a circuitos nacionais e internacionais, abrir espaços e possibilidades para pessoas e práticas que têm tido menos acesso e oportunidades, e aumentar sustentadamente as nossas parcerias, tanto artísticas como institucionais e financeiras. Por fim, e tendo também em conta algumas das especificidades d’O Espaço do Tempo, acredito que é muito importante pensar continuamente sobre a validade e a importância do que estamos a fazer e de onde o estamos a fazer, sobre o modo como nos relacionamos, e de que modo a nossa ação pode ser ainda mais determinante para a construção de um ecossistema artístico mais forte, mais unido, com mais colaboração e menos competição, e com consciência consequente dos problemas sociais, políticos e ambientais que enfrentamos actualmente.

 

2. Pode dizer-nos o que é que as residências artísticas trazem aos artistas em geral e o Espaço do Tempo em particular? Porque é que este espaço foi lançado em Montemor-o-Novo e que ligação têm os residentes com a região?

No mundo em que vivemos, tem sido cada vez mais notório que um dos mais importantes e, ao mesmo tempo, mais escassos bens é o tempo. Vivemos num sistema com profundos desequilíbrios e assimetrias, extremamente precário e demasiadamente veloz. No que respeita a todos os fazeres, no geral, e ao fazer artístico, em particular, é muito importante ter tempo. Ter tempo, por exemplo, para pensar, para criar, para estudar, para praticar, para descansar, para confraternizar, para nos conhecermos a nós e aos outros, para observarmos o mundo, para percebermos o que queremos fazer, para reconhecermos as urgências e as motivações que nos levam a continuar, e para nos dedicarmos a este investimento contínuo que é fazer arte. O Espaço do Tempo é já um nome que prescreve com  muita eficácia o que queremos proporcionar aos artistas e às pessoas que fazem parte das equipas que acolhemos e apoiamos: espaço e tempo. E o modo como acolhemos as pessoas n’O Espaço do Tempo é também muito próprio, com grande proximidade e cumplicidade. Quando alguém faz uma residência connosco, sabe que pode contar com a dedicação, a afectividade e o profissionalismo da nossa equipa, sabe que será tratada com cuidado e respeito, e que poderá habitar aquele lugar como se fosse a sua casa, mas com várias pessoas a co-habitarem aquele lugar, garantindo que tudo corra pelo melhor. Garantimos alojamento, refeições reconfortantes, estúdios equipados, apoio artístico, técnico, logístico, de produção e de comunicação, bem como uma limpeza exemplar e uma dinâmica muito prazerosa de se viver enquanto se trabalha.

Sobre a relação com Montemor-o-Novo e com a região, ela acontece em várias direções e em sentido crescente. A maioria da nossa equipa habita em Montemor-o-Novo e participa também na forte vida artística, cultural, associativa e social da região. A maioria dos produtos e dos serviços que usamos na nossa actividade vem de fornecedores locais e o impacto económico que geramos na região é, também por isso, muito significativo. Colaboramos e de mantemos saudáveis relações com outras associações e estruturas artísticas locais, e as nossas actividades públicas são cada vez mais e estão a ser cada vez mais frequentadas por pessoas da região. Temos ainda várias actividades para e nas escolas, temos encontros mensais do nosso colectivo de espectadores para discutirmos as obras que são apresentadas n’O Espaço do Tempo e, não poucas vezes, há colaborações artísticas e profissionais, bem como relações sociais e afectivas, entre artistas e equipas em residência n’O Espaço do Tempo e habitantes de Montemor-o-Novo.

Quando o Rui Horta começou esta extraordinária empreitada, não sei por que terá escolhido Montemor-o-Novo. Acredito que as razões tenham sido várias e de diferentes ordens. O que é certo é que de lá para cá tem sido notório um crescimento sustentável de várias estruturas artísticas na região, com diversos artistas e profissionais das artes a virem morar para Montemor, onde a actividade artística e associativa, bem como a dinâmica cultural e social, são excepcionalmente notáveis.

 

3. Que ligações tem com França, tanto desde a criação do Espaço do Tempo como desde a sua nomeação?

A França é um dos países mais desenvolvidos da Europa, com uma história de grande consciência social e política, da qual tem decorrido um forte investimento na cultura e nas artes. Como resultado, é incrível a quantidade e a qualidade da arte contemporânea feita em França, particularmente nos domínios da dança e do teatro, com excepcionais artistas a circularem internacionalmente com grande visibilidade. Pel’O Espaço do Tempo, nos últimos anos, recebemos diversas artistas francesas, como Magda Kachouche, Mathilde Bonicel, Vincent Roumagnac, Flora Detraz, Betty Tchomanga, entre outros. Por outro lado, temos também várias parcerias com pessoas e instituições artísticas francesas que decorrem da nossa participação em algumas redes internacionais, como a European Dance Development Network ou a Aerowaves. Vários dos artistas que têm trabalhado n’O Espaço do Tempo têm tido também uma presença muito forte em França, como Marlene Monteiro Freitas, Tiago Rodrigues, Tânia Carvalho, Marco da Silva Ferreira, Jonas & Lander, entre outros. Desde que assumi a direção artística d’O Espaço do Tempo, tenho estado, como é expectável, atento ao que se faz em França. Além da Anna Gaiotti, que vamos receber na primeira quinzena de Julho, estamos já em conversações com outras artistas e colectivos de França para que possam estar connosco no próximo ano. E estamos a iniciar agora esta relação com o Institut Français du Portugal que muito nos orgulha e entusiasma.

 

4. A artista e performer Anna Gaiotti e a sua equipa vão fazer uma residência no Espaço do Tempo em julho, em coprodução com o Institut français du Portugal, para criar o seu novo projeto “RAGE”. Pode falar-nos do seu projeto? Porque é que a escolheram?

A escolha da artista Anna Gaiotti ocorre mais pelo seu corpo de trabalho do que por causa deste projecto. De entre várias artistas que considerámos, julgámos que a Anna seria aquela cujo percurso e abordagem se relacionavam melhor tanto com os critérios curatoriais d’O Espaço do Tempo, como com as prioridades estratégicas desta colaboração com o Intitut Français du Portugal. Este projecto que a Anna Gaiotti vem desenvolver n’O Espaço do Tempo – “RAGE” – é um trabalho coreográfico e musical que parte da obra “La Rabbia”, de Pier Paolo Pasolini, que conta com uma equipa multidisciplinar composta por artistas muito interessantes, e que tem várias parcerias de instituições francesas e belgas, além desta co-produção d’O Espaço do Tempo e do Institut Français du Portugal. Podem conhecer mais sobre o seu trabalho aqui: https://annagaiotti.com/LOVALOT-ANNA-GAIOTTI e sobre “RAGE” aqui: https://www.oespacodotempo.pt/pt/residencias/anna-gaiotti

 

 

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