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3 perguntas à filósofa Myriam Revault d’Allonnes

Entrevista

Figura maior da filosofia política francesa dos últimos 40 anos, Myriam Revault d’Allonnes é professora na École Pratique des Hautes Études. Arendt. Autora de uma obra rica e densa, desenvolveu uma reflexão sobre a democraciae o vínculo político e nunca deixou de se interrogar sobre o que está na base do nosso serpolítico, da nossa base comum e da forma como formamos uma comunidade política.

Na ocasião do cinquentenário da Revolução dos Cravos, Myriam Revault d’Allonnes estará em Portugal em abril para dar uma série de conferências em Lisboa, Porto e Évora.

 

Fizemos-lhe 3 perguntas.

 

1- Professora Revault d’Allonnes, pode dizer-nos em que consistem as suas reflexões filosóficas?

A minha investigação e o meu trabalho centram-se principalmente na filosofia ética e política.   Sinto-me próximo das perspectivas de Merleau-Ponty, Hannah Arendt, Claude Lefort e Paul Ricoeur, para citar apenas alguns dos principais pensadores contemporâneos. Dediquei os meus primeiros trabalhos à questão do mal – e sobretudo do mal político – em particular à luz das experiências totalitárias do século XX. Examinei a noção de “banalidade do mal” (proposta por Hannah Arendt durante o julgamento de Eichmann em 1962) e a questão do “sentido do humano”, entendido como a capacidade de trocar experiências. Depois, centrando-me nos recursos de resistência que as nossas sociedades democráticas poderiam opor à realização do mal, abordei os problemas ligados às experiências contemporâneas e à reformulação concetual que as trabalha e transforma. Publiquei vários trabalhos sobre a noção de autoridade, sobre a questão da crise e das novas temporalidades, sobre as modalidades de representação e, mais recentemente, sobre a pós-verdade. No meu trabalho, dou um lugar decisivo aos afectos políticos, às sensibilidades colectivas e às disposições subjectivas que os indivíduos mantêm, particularmente no que diz respeito ao modo de existência democrático.

 

2- No seu livro A verdade frágil publicado em Portugal, escreve que as fake news representam um verdadeiro perigo para a democracia e a vida em comunidade. Pode nos explicar porque ? Por outras palavras, o que é feito do desprezo da realidade dos factos e da interpretação dos mesmos na construção das sociedades democráticas?

O meu livro, A Verdade frágil, é uma reflexão sobre a questão da pós-verdade que invadiu a arena pública desde o Brexit e a eleição de Trump como Presidente dos Estados Unidos em 2016. A proliferação das fake news é apenas um aspeto do problema. O principal é que a própria verdade se tornou secundária, irrelevante, até mesmo obsoleta. Já não tem qualquer efeito sobre a realidade. A pós-verdade não é uma mentira: a mentira distorce, trunca e nega a verdade, mas não a abole.  Mas a pós-verdade destrói a diferença entre verdade e falsidade, tornando a própria verdade sem sentido.  As fake news – que se propagam de forma viral na Internet e nas redes sociais – são a manifestação e a revelação disso mesmo. O que é mais preocupante é o enfraquecimento das condições de debate no espaço público. A pós-verdade, surgida em sociedades democráticas constantemente expostas à dissolução dos sinais de certeza, à tentação do relativismo e à transformação das “verdades de facto”, está a minar o exercício de um julgamento crítico baseado na realidade dos factos. Passamos a apoiar qualquer “opinião” que nos agrade, independentemente de estar ou não enraizada em factos incontestáveis. A novidade deste fenómeno não reside apenas na transmissão “viral” da informação, mas também no facto de minar o nosso “mundo comum”, as opiniões, os julgamentos e as experiências sensíveis que podemos partilhar com os outros. Porque as sociedades democráticas são, acima de tudo, sociedades onde o debate e a partilha podem ter lugar.

 

3- Em Ainsi meurt la démocratie (Ed. Mialet/Barrault, 2022), um livro recente constituído por correspondência entre si e Chantal Delsol, volta ao tema da fragilidade democrática, que distingue de uma suposta fraqueza inerente à democracia moderna. Considera que as sociedades democráticas estão a atravessar um período de extrema fragilidade nos últimos anos?

O tema da fragilidade democrática é, a meu ver, uma questão fundamental, especialmente numa altura em que, desde há anos, as democracias estão em crise e ameaçadas pela ascensão de regimes autoritários. Mas também estão a ser abaladas a partir do seu interior pela crescente desconfiança dos cidadãos em relação aos seus representantes, pela falta de legitimidade que afecta as instituições e pelo desinteresse pelos assuntos públicos. Todas estas dificuldades são propícias a excessos autoritários, sob o pretexto de que a democracia é demasiado fraca, demasiado lenta, demasiado ineficaz para responder aos problemas urgentes. Mas se a democracia está hoje em crise, não é porque seja impotente ou “naturalmente” fraca; é porque já não abraça a dinâmica que a alimenta e sustenta; é porque lhe falta a capacidade de invenção e o poder de agitação que fazem dela um campo indefinidamente aberto. Isto não é nem uma falha nem um sinal negativo: significa que o debate democrático não tem uma conclusão definitiva, que os seus resultados nunca são alcançados de uma vez por todas, porque está constantemente sujeito ao teste da discussão. A democracia está constantemente a repetir questões fundamentais ligadas a escolhas, valores e preferências. A invenção permanente é a norma da democracia: é o que a torna simultaneamente grande e frágil.

 

Debate de ideias