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Entrevista com Raquel Tavares e Gabriel Marais

Raquel Tavares e Gabriel Marais são um casal de investigadores franceses (UMR CNRS 5558/ Laboratoire de Biométrie et Biologie Evolutive). Chegaram em setembro do ano passado e falaram nos sobre esta nova experiência e os projetos de investigação que estão a realizar em Lisboa.

Raquel Tavares é professora de biologia na Universidade Claude Bernard Lyon 1, no campo da genómica e evolução das plantas. É portuguesa, natural de Lisboa, e também francesa (naturalizada há 10 anos), e vivo em França desde 1994.

Gabriel Marais é investigador principal no CNRS em biologia, no campo da genética e evolução. É francês, oriundo da região parisiense.

Ambos trabalham na equipa “Sex and Evolution” do Laboratório de Biometria e Biologia Evolutiva (LBBE) no campus de Doua em Lyon-Villeurbanne. Durante o ano letivo de 2019/2020, foram convidados para trabalhar no Instituto Superior de Agronomia (ISA) em Lisboa.

 

Bom dia, poderiam dizer-nos, muito rapidamente, quem são?

Raquel Tavares: Sou professora de biologia na Universidade Claude Bernard Lyon 1, no campo da genómica e evolução das plantas. Sou portuguesa, natural de Lisboa, e também francesa (naturalizada há 10 anos), e vivo em França desde 1994.

Gabriel Marais: Sou investigador principal no CNRS em biologia, no campo da genética e evolução. Sou francês, oriundo da região parisiense.

Ambos trabalhamos na equipa “Sex and Evolution” do Laboratório de Biometria e Biologia Evolutiva (LBBE) no campus de Doua em Lyon-Villeurbanne. Durante o ano letivo de 2019/2020, fomos convidados para trabalhar no Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa.

Poderiam falar-nos sobre o projeto de investigação no qual estão a trabalhar atualmente?

RT: Gostaria de compreender como as modificações genéticas afetam o organismo durante a evolução. Interesso-me particularmente pelas plantas. Estou a trabalhar no impacto da duplicação de genes e de genomas (o fato de um gene ou um genoma inteiro se duplicar) na evolução fenotípica das plantas (fenótipo é a característica observável dos organismos). Colaboro sobretudo com colegas especializados no que é conhecido como metabolismo secundário nas plantas, ou seja, a produção de substâncias envolvidas, por exemplo, a resistência aos agentes patogénicos e a vários stresses ambientais, mas também de compostos aromáticos. Conseguimos mostrar que duplicações de certos genes levaram a inovações neste metabolismo.

GM: A minha investigação tem por objetivo principal a biologia dos sexos. Estou a tentar perceber como é determinado ser macho ou ser fêmea. Nos humanos, a determinação sexual é bem conhecida, baseada nos cromossomas sexuais XY e envolve o gene Sry. Noutras espécies, incluindo um grande número de plantas (dioicas) separadas pelo sexo, a determinação é muito menos conhecida. Nos últimos anos, tenho-me concentrado nas plantas dioicas. Com alguns colegas temos vindo a desenvolver métodos para identificar cromossomas sexuais em espécies onde são desconhecidos ou pouco conhecidos, de uma forma eficiente e rentável. O desafio é compreender como o sexo é determinado nas plantas e como evolui nos organismos vivos, comparando plantas e animais. O nosso trabalho também serve para fornecer ferramentas genéticas para culturas dioicas como o mamoeiro, o morangueiro, a videira ou o diospireiro, onde pode ser importante dominar a determinação sexual.

Como surgiu a vossa cooperação com Portugal e porque escolheram passar uma longa estadia no ISA – UL?

RT: Colaboro há vários anos com colegas do Instituto Nacional de Investigação Agronómica (INRA) em Colmar em projetos de genómica da videira (particularmente sobre a evolução dos genes envolvidos na produção de aromas do vinho). Um grande desafio para a viticultura na França hoje em dia é o aquecimento global. As castas francesas não estão adaptadas a um clima mais quente e seco, o que está a perturbar os processos vitivinícolas em França. Em Portugal, existe uma impressionante diversidade de castas, cerca de 500, ou seja, um pouco mais do que em França para um território 5 vezes menor. Portugal está muito mais a sul do que a França e há castas portuguesas muito resistentes ao calor e à seca. Gostaria de identificar os genes que são responsáveis por essas resistências. No ISA, existe um grande conhecimento sobre as castas portuguesas e muitos recursos disponíveis para tal e foi quase natural estabelecer uma colaboração para desenvolver este projeto. Atualmente estou a montar o projeto com Elsa Gonçalves, Luísa Carvalho e Antero Martins, professores do ISA. E tudo se torna mais fácil quando estamos aqui…

GM: Em França, participei num projeto sobre a videira com colegas em Colmar e outros em Montpellier. O objetivo era entender como passamos de dioicos a hermafroditas durante a domesticação da videira. Para isso, sequenciamos o genoma da videira silvestre (V. sylvestris) e aplicamos um dos métodos que desenvolvemos na equipa para obter a sequência dos cromossomas X e Y da videira silvestre. A comparação com o genoma da videira cultivada, que já estava disponível, revelou os genes que mudaram no cromossoma Y durante a domesticação. Queremos agora verificar experimentalmente os nossos genes candidatos. Uma equipa do ISA está a trabalhar neste mesmo assunto e gostaríamos de colaborar com eles para dar continuidade a este projeto. Passar um ano longe do laboratório também é uma oportunidade para nos podermos concentrar e escrever projetos ou artigos, o que é mais difícil de fazer na azáfama que é normalmente a nossa rotina diária. Acontece que eu tenho muito que escrever…

Também temos uma ligação privilegiada com Portugal. Este ano é um retorno às origens de duas maneiras para Raquel. Ela é mesmo de Lisboa. A família dela vive aqui e ela tem mantido muitos amigos portugueses. Também ela é uma ex-aluna do ISA. A nossa estadia foi um projeto construído com toda a família. O nosso filho, Gaspar, é bilingue e este ano, em Portugal, será uma oportunidade para melhorar o seu português, para passar tempo com a sua família portuguesa e para reforçar os laços com o seu segundo país.

Que mecanismos de cooperação com Portugal tem utilizado?

RT: Como professora na universidade, normalmente dou aulas. Para poder passar um ano no ISA, tive de obter uma dispensa de ensino. Candidatei-me a dois esquemas: o CRCT, em primeiro lugar, tanto a nível local (a minha universidade) como a nível nacional (CNU), e também a delegação do CNRS. Obtive 6 meses de autorização do CNU e 1 ano do CNRS.

GM: Sendo um investigador do CNRS e sem obrigatoriedade de ensinar, o meu processo foi mais simples. Candidatei-me a uma longa missão no CNRS. Este pedido foi examinado a diferentes níveis (director do meu laboratório, responsável pela prevenção, médico do trabalho, gestão da CNRS) e foi aceite.

Que mecanismos financiam atualmente a sua estadia em Portugal?

Não temos nenhum financiamento adicional; não nos candidatamos. Trouxemos os nossos computadores e utilizamos o nosso financiamento em França para comprar pequenos equipamentos informáticos no local. Não precisávamos de procurar alojamento, que muitas vezes é o fator limitativo neste tipo de projeto de expatriação e que de facto requer financiamento.

Como está a ser o início da vossa estadia quer a nível científico como humano?

A nossa estadia no ISA está a correr muito bem. Fomos bem recebidos e as colaborações no local estão a ser estabelecidas. Portugal é um país formidável. A qualidade de vida aqui é excelente e realmente gostamos muito de aqui viver.

Quais são as suas perspetivas para o desenvolvimento desta cooperação? Por exemplo, estão a pensar em candidatar-se às estruturas de cooperação da Centro Nacional da Investigação Científica (CNRS), como os Laboratórios Internacionais de Investigação, anteriormente LIA Laboratórios de Investigação Associados?

Se a colaboração se concretizar efetivamente, poderia considerar a possibilidade de solicitar um financiamento conjunto, por exemplo, um pedido de financiamento internacional à Agência Nacional da Investigação (ANR). Outros pedidos para financiar viagens ou para estruturar a cooperação poderão ser interessantes. Outro aspecto, seria ainda desenvolver a cooperação ao nível da educação. O nosso laboratório é reconhecido num campo de competência sobre bioinformática onde também existe um mestrado nesta área. Os perfis em bioinformática são muito procurados na era da genómica e do big data, tanto na investigação pública como na privada. Gostaríamos de trabalhar para construir pontes entre os dois países (mais especificamente entre as duas cidades, Lyon e Lisboa) neste campo da formação. Contamos com o serviço de cooperação da embaixada da França para nos ajudar neste processo!

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